UM VENTO SOBRE OS HOMENS
Prado, o sul extremo. O ônibus rasgou de ponta a ponta a longa rua e dobrou para a estação rodoviária. A parada à plataforma foi ruidosa, como um baque de porta de vidro, a deixar no ar algo de luz e som: o motor suspirou, pneus descansaram e gritos de parentes e amigos ecoaram lá fora. A moça ao meu lado demorou a se levantar e, como eu, de pé, a pressionasse, se afastou para o corredor e me deu passagem. Dias antes, eu estava sentado à mesa de um bar do Politeama, em Salvador, lendo um livro de viagens, quando uma mão branca, grande e limpa atirou sobre a mesa um reluzente volume de notas. Vi mãe e filha quando ergui os olhos de sobre o livro e os depus sobre a vida. Sempre me procuram nos mais estranhos lugares para algum serviço. Levei-as à praça mais próxima, a natureza em volta, e, diante da menina, o olhar ressabiado, inquiri a mãe. Seu marido fugira com sua filha mais velha e ela achava que eles estavam em Prado.
"É o pai dela?", interrompi a mulher e apontei a garotinha ao seu lado, quase envolta em suas saias, e cujos cabelos, desgrenhados, lhe toldavam os olhos.
"Não."
"E da outra?"
"Também não."
Desci do ônibus.
"E o que a senhora quer que eu faça?"
"Mate ele e traga minha filha de volta."
O luar encharcava seu corpo. Do alto, parado à sacada do meu quarto, eu a via na borda da piscina, estendida na espreguiçadeira. Sua postura era de relaxamento, desdém. Seus membros nus ignoravam, de igual modo, tanto o frio quanto a noite pródiga de estrelas. O exíguo biquíni distendia-lhe, elasticamente, as coxas e o tronco esguio. Tinha pernas altas e um quadril estreito, de angulosas saliências ósseas. Os seios, pequenos e ainda presos ao atávico mistério da infância, se acresciam agora dos tópicos íntimos, noturnos, compartilhados com o padrasto. Não era mais tão criança, uma insignificante figura infantil, como na foto que a mulher me estendera e na qual, junto à mãe e à irmã, mal sorria ou sorria forçado, por imposição, efeito de uma ordem... Tinha se distendido como um felino no salto. Havia dois dias que eu não avistava seu padrasto. Temi que tivesse escapado, e com ele meu dinheiro.
Na própria estação rodoviária tomei café, enquanto examinava o guia da cidade. O hotel mencionado pela mulher era sem dúvida um dos melhores. Estrelado, bonito. Segundo ela, o irmão do marido (não falou cunhado) era o gerente. "Eles estão lá", disse. "Ou não", retruquei. Tudo dependeria do fato do outro concordar ou não com a atitude do irmão. Há homens que não aceitam isso, relacionamentos com mulheres que não passam de crianças precocemente crescidas. E em especial nesses casos, em que o amante é pouco menos que pai...
"A senhora sempre desconfiou deles? Chegou a surpreender os dois juntos?"
"Não, nunca. Simplesmente fugiram. Acordamos, e eles não estavam. Nem suas roupas."
Com o olhar distante, solto sobre as árvores, os raros arbustos, perguntei o que a forçava a acreditar que estivessem em Prado.
"Intuição. E também porque o irmão vivia convidando ele para ir trabalhar no hotel."
Pedi à garçonete que trouxesse a conta. Enquanto me passava o troco, esclareceu que o hotel ficava longe, perto da praia. E que era o preferido dos turistas, mas que eu provavelmente encontraria um quarto, era ainda primavera, nada de turistas... Na rua, sob um vento que não sei por que sempre me acompanha, tomei um táxi.
Parei diante de seu corpo de prata. Seus olhos cerrados pareciam duas imperceptíveis fendas, os cílios negros, tão negros quanto as duas peças do biquíni.
"Olá, não está com frio?"
A garota abriu o olhos. Durante todo o tempo em que a vi no hotel ou pela cidade, sempre esteve de biquíni. No máximo com uma toalha a envolver os quadris. Era assim que se projetava dentro dos olhares, e os devassava, os afligia.
"Oi", ela disse, sorrindo.
Quando a mulher se voltou para ir embora, a menina agarrada à sua saia, falei: "Espere, esse dinheiro não dá. Terei despesas extras: passagem, hotel, alimentação..." Ela se voltou, a enorme mão a escarafunchar o meio dos seios. De volta, portava dois minúsculos objetos brilhantes: "Isso basta? São de ouro puro".
Não há ouro puro, eu sei. Mesmo assim, era um belo broche e um delicado cordão. O primeiro, suntuosamente ornamentado, continha uma pedra leitosa, e o segundo, liso, era só metal, cortado em finas linhas. Ia ter que empenhá-los. Mais um trabalho e, mais que isso, uma desnecessária exposição em público. Apesar de tudo, guardei as jóias.
"Quando o senhor volta?", perguntou.
"Se estiverem mesmo em Prado, em uma semana. Não mais que isso."
Então partiu, sem me dizer mais nada. Parecia sangrar por ter de requisitar meus serviços.
"Nunca sinto frio", a garota disse, num tom de indissolúvel certeza, firme como um recife polido pelo mar.
Na portaria do hotel fui recepcionado pelo sujeito que procurava e que deveria matar. Ele, de fato, trabalhava no hotel e fez minha ficha, sorrindo sem graça quando lhe falei que procurava uma garota...
"Uma garota?", gaguejou.
"É, loura e que fugiu de casa há uma semana. Tudo leva a crer que anda por aqui, na cidade."
Ele suspirou aliviado. Sua presa não era loura, ao contrário. Morena, cabelos negros e olhos levemente puxados, parecia antes uma índia ou uma oriental, embora o porte visivelmente europeu, meio francês do norte, ar audacioso, jeito petulante e uma perpétua convicção de que seduz e pode seduzir a quem quer que seja, sempre.
"Não sente frio...?"
"Não, já disse", e ergueu o corpo, voltando-se mais diretamente para mim: "Quem é você?"
Me sentei na espreguiçadeira ao lado.
"Vim a pedido de sua mãe..."
Ela se ergueu ainda mais, em silêncio, ajeitando o sutiã prestes a deixar fugir um dos seios. Desviei o olhar para a água: "Pra te levar de volta".
"Droga!", disse afinal e, de um salto, ainda a ajeitar o sutiã teimoso, jogou-se na piscina. Respingos saltaram sobre mim, minhas calças, e alguns chegaram a alcançar meu rosto.
"E seu padrasto? Ninguém o vê há dois dias...", gritei.
Ela nadou até a borda, aos meus pés, e parou.
"No armário", disse com frieza, ou ódio.
Subimos ao seu quarto. De sob o armário escorria uma mancha de sangue. E já se espalhava no ar um odor diferente...
MAYRANT GALLO